Seu filho precisa apanhar? Então o problema é você

4 min


45.7k shares
Seu filho precisa apanhar

Seu filho precisa apanhar, ou você precisa aprender a se controlar?

Eu vejo o tempo inteiro em grupos maternos, mães querendo saber sobre o que as outras mães acham, perguntam se elas batem nos filhos e o que pensam sobre o assunto. Na maioria das vezes, partir para a violência é só um reflexo de pais que não sabem mais o que fazer.

No Brasil, desde 2014, a Lei da Palmada está em vigor e proíbe qualquer tipo de castigo físico e agressão na educação dos filhos.

Violência gera violência.

nao_violencia

A única coisa que se ensina para o filho batendo nele é que “ok” ser agredido ou “ok” bater nas pessoas para resolver coisas, que com uma conversa se resolveria normalmente.

Se um pai ou mãe aparece agredindo o filho, as pessoas costumam chamar isto de “educar”.

Usam inclusive aquela velha máxima de quem não quer pensar no assunto: “apanhei a vida inteira dos meus pais e mereci”.  Sinto pelas pessoas que pensam isto sobre si mesmas, que mereçam apanhar.

Se o pai ou a mãe deste adulto que apanhou, se abaixasse, com calma e amor dissesse: “Filho, vem cá, isso está errado”, Será que esta pessoa que cresceu apanhando não seria capaz de entender?

Segundo o cientista social Renato Alves, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), o brasileiro apanha muito na infância ou na adolescência. Em uma pesquisa de 2010, realizada com 4.025 pessoas com mais de 16 anos em 11 capitais do país, 70,5% sofreram alguma forma de castigo físico quando jovens.

Bater não educa.

Segundo um estudo dos canadenses Ron Ensom e Joan Durrant, da Universidade de Manitoba e do Hospital Infantil de Eastern Ontario, respectivamente, nenhuma punição física tem efeito positivo – a maior parte tem, na verdade, efeitos negativos. Os cientistas analisaram 36 mil pessoas durante 20 anos.

Uma outra pesquisa realizada pelas universidades do Texas e de Michigan, nos EUA, e publicada no “Journal of Family Psychology“, mostraram que crianças que apanham dos pais possuem mais chances de apresentar, na vida adulta, comportamento antissocial e agressivo, desenvolvendo até 13 problemas mentais e sociais.

Foram colhidos para esta pesquisa dados de 160 mil crianças, registrados durante 50 anos e analisados pelos estudiosos confirmando que “palmadas educativas” e outros tipos de agressões são responsáveis por problemas como baixa autoestima, relacionamento ruim com os pais, baixa habilidade cognitiva, entre outros.

Em uma entrevista ao site de ciência e saúde da “Vox”, a psicóloga Elizabeth Gershoff avaliou por 20 anos estudos de comportamentos de crianças que foram submetidas à palmadas durante a infância, e chegou-se à conclusão que não existe qualquer relação entre bom caráter e boas maneiras com receber palmadas dos pais.

Ah, mas a gente fala, fala, fala e não adianta!

Se pergunte quantos anos seu filho tem. Geralmente bebês e crianças até uns 10 anos, as vezes mais, são teimosas e desafiadoras. Faz parte do ser em formação delas. Cabe ao adulto, bem resolvido e já formado (teoricamente) mostrar pra ela que ele tem o controle da situação e sabe o que é melhor pra ela. Fazendo sabe o quê? Tendo autocontrole e maturidade emocional.

E autocontrole e maturidade emocional, passa muito longe da violência.

Quem cresce apanhando, geralmente tende a repetir o mesmo com os filhos. O ciclo é interminável. É muito difícil para alguém que só conheceu a violência como forma de educar, quebrar esta corrente e tentar educar sem partir para a agressão.

É importante não descontar as frustrações da vida batendo no filho. Levante essa bandeira todos os dias. Quantas vezes crescemos ouvindo: “Bate em alguém do seu tamanho!”

E por que, para nossos filhos, o ditado não serve? Olha o nosso tamanho, olha o tamanho de nossos filhos. É injusto.

“Ah, mas é só uma palmadinha, pra esquentar o bumbum.”

E se, de repente, o chefe de um adulto não curtisse algo que ele fez e desse umas palmadinhas? Não ia doer. Não no corpo físico, ia doer na alma.

Imagina alguém se tem como superior ou alguém a ser seguido e admirado, não aprovando algo em um adulto e te lhe umas palmadas. “Que humilhação!” O adulto iria pensar.

A maioria de nós, nos sentimos humilhados em nosso trabalho por muito menos. As vezes palavras humilham. Atitudes humilham.

A violência é só a parte doída fisicamente e a constatação que se está subjugando alguém a um outro jugo sem dó nem piedade, e mostrando para este alguém que ele não é digno de receber paciência e compreensão quando erra. É isso que muitos fazem com os filhos quando batem nele.

Educar dá trabalho. Bater é o caminho fácil.

Sabe por que? Porque a gente tem que se controlar. A gente precisa como pais desafiar as regras que nos foram impostas, e que nós mesmos nunca concordamos, mas estão tão intrinsicamente dentro de nós, que as vezes sem perceber, reproduzimos. 

Educar é um enfrentamento de você contra tudo o que você aprendeu até hoje e sobre como você foi educado, sobre como quer educar. Educar um filho com respeito e gentileza é um desafio diário e se você consegue, você está sendo forte.

Se mostrar forte emocionalmente é muito mais valioso do que se mostrar forte fisicamente agredindo o filho.

Quem liga pra força que tem uma palmada se o que ela vai trazer é humilhação, tristeza e medo? A força que se mostra sendo uma pessoa emocionalmente estável e justa vai fazer brotar sementes.

E não basta apenas não bater. Sair gritando feito um louco e xingando a criança também é um tipo de agressão que não serve para nada.

A ideia não é ser permissivo com a criança, mas orientar e educar com serenidade, positivismo e amor. Você vai precisar falar muitos “nãos” e se impor, mas faça isso da melhor forma possível.

Se questione, se desafie. Vença estas barreiras impostas desde sua infância.

Leia também:


Like it? Share with your friends!

45.7k shares

What's Your Reaction?

Uau Uau
2
Uau
Gostei Gostei
1
Gostei
Amei Amei
16
Amei
Ouwn Ouwn
2
Ouwn
error: Este conteúdo é protegido pelas leis de direitos autorais, não copie, compartilhe. :)