A triste história das amas-de-leite no Brasil

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Você conhece a história das amas-de-leite no Brasil? O aleitamento materno entre os índios tupinambás era a regra geral até a chegada dos colonizadores europeus que não viam a amamentação em sua cultura como uma atividade nobre à mulher branca.

O amor materno era deixado de lado, pois não tinha valor social e moral e por isso a amamentação era vista como “indigna” para estas damas que recorriam as amas-de-leite para alimentar seus filhos.

E como o status social é geralmente copiado das parcelas mais ricas para as mais pobres em busca de aceitação e equalização social, esta cultura acabou sendo difundida também para as classes mais pobres da sociedade brasileira.

E é aí que entra em atuação as “saloias” ou “amas-de-leite” que inicialmente no Brasil eram índias ou mulheres muito pobres que amamentavam os filhos das damas, sendo estas as primeiras versões de amas-de-leite no Brasil.

Porém, como as índias eram culturalmente rejeitadas, um novo modelo de amas-de-leite entrou em atuação naquela cultura européia pobre de amor e conhecimento: as amas africanas que eram trazidas tanto para amamentar os filhos das damas como para cuidar deles.

O filho nada mais era do que um acessório para a família em questão, o pai apenas se interessava pelo filho quando este já estivesse adulto a fim de ser seu herdeiro e levar adiante seu trabalho, a mãe via a maternidade como um fardo indigno que não a beneficiava, já que sua principal função era apenas de gerenciar a casa como uma empresa.

Quando as amas-de-leite africanas entravam em atuação para amamentar os filhos das damas, o desmame de seus próprios filhos ocorria em função da alimentação do outro, ou seja, o desmame ocorria de forma brusca e violenta para com o bebê da escrava.

Com o tempo a moda “escravas amas-de-leite” se ampliou e virou um negócio que gerava muito lucro para quem o praticava.

Escravas eram vendidas como amas com ou sem seus filhos. A crueldade da sociedade alcançava níveis inimagináveis quando percebemos o que as pessoas eram capazes de fazer com um outro ser humano.

A mulher escrava era comercializada como mero objeto e seu bebê completamente ignorado. O negócio de amas-de-leite era considerado algo mais rentável até mesmo do que plantar café, como afirmaram alguns senhores de escravos (Ewbank, 1976).


“Vende-se uma preta, moça, com bom leite, com filho ou sem ele de dois meses” (08/08/1850)


Este era um dos anúncios que circulavam pelas publicações locais no Rio de Janeiro, em 1850. Este era o aleitamento mercenário onde pessoas completamente desprovidas de amor ao próximo e respeito ao ser humano vendiam outros, separavam mães de seus bebês e as colocavam para amamentar outros bebês e não o delas.

Horror. Esta é a definição do sentimento que desperta nos dias atuais esta faceta ordinária e sem escrúpulos do ser humano.

O aleitamento mercenário foi exercido no Brasil muito antes da chegada dos leites artificiais ao mercado e refletia uma estratégia mercantilista. É histórico, porém, que o aleitamento materno também gira em torno do lucro, o que institucionou a cultura do desmame no Brasil tanto nesta época quanto depois com a chegada dos leites industrializados.

A maternidade foi negada à mulher negra, para tornar possível a apropriação de sua capacidade de reproduzir e amamentar. (Costa, 1983) Veja aqui: Indústrias de alimentos infantis e o desmame comercial

Ternura, amor, respeito e empatia eram considerados sentimentos ridículos.

A amamentação não era considerada “elegante” e por falta de uma consciência crítica, as classes inferiores copiavam estes valores. Foi neste cenário obscuro que também surgiu a prática da amamentação cruzada, hoje, desaconselhada por conferir à mulher e aos bebês de ambas riscos de contaminação por doenças que às vezes nem mesmo os portadores têm consciência de possuírem.

A amamentação cruzada carrega em seu contexto histórico atitudes degradantes e monstruosas do ser humano daquela época, ainda que hoje em dia, uma irmã amamente o filho da outra, a pergunta que nos surge é: por que a mãe não o faz? Por que este momento de vínculo afetivo construído entre mãe e filho e que inclusive foi condenado ao longo dos anos é visto como tarefa árdua por algumas pessoas?

De lá para cá, resquícios desta cultura, tanto no que tange ao aleitamento mercenário, hoje camuflado pelas grandes empresas que tentam através de estratégias de marketing tirar da mãe o bem mais precioso que ela pode oferecer ao seu filho, quanto a cultura do desmame praticada ainda hoje quando por falta de informação a mãe substitui o seu leite por outro, afeta uma grande parcela da sociedade onde o maior prejudicado é o bebê.

Questionar é preciso, sempre.

“Por que meu leite não sustentaria meu filho se ele existe simplesmente para esta função?” “Por que algo artificial seria melhor do que algo natural?”

Fazendo pequenas perguntas que nos levem ao pensamento crítico, seremos capazes de decidir com maestria e trilhar os melhores caminhos da maternidade onde vínculo, amor, afeto, empatia são nossos maiores ganhos e a amamentação nossa melhor ferramenta para estabelecê-los.

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