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O termo “Mamas em luto” pode soar forte e pesado, no entanto, cientificamente falando, ele pode explicar de um jeito claro o mecanismo do corpo materno.

Quando o autor do artigo fala em “Mamas em luto” ele não fala sobre decisões de amamentar ou não um bebê, não fala em escolhas maternas, não fala sobre conseguir ou não amamentar. Este artigo trata única e exclusivamente sobre questões fisiológicas e mecanismos de funcionamento do corpo humano, nada além.

Aviso de gatilho emocional: se você não pôde amamentar seu bebê e de alguma forma ainda sofre com isto, não leia este artigo.


Artigo criado por: Jesse Bering em Scientific American
Tradução livre e adaptação: Suelen Maistro


As discussões sobre a amamentação x a alimentação na mamadeira geralmente se concentram no bebê: o que é melhor em termos de nutrição? Ou sobre como fica a saúde mental futura do bebê?

Mas vamos tomar uma rota diferente. Vamos falar sobre a mãe, e mais especificamente, as mudanças em seu corpo ao se preparar para nutrir um recém nascido com fome. Com seus seios maiores e os hormônios fluindo, o que acontece se nenhum recém-nascido sugar a mama? Como seu corpo e seu cérebro reagirão?

Primeiro, um pouco do início de tudo:

As mudanças físicas óbvias no corpo humano grávido (incluindo os seios maiores e pesados) ocorrem em resposta a níveis crescentes de hormônios como a prolactina, lactogen, estrogênio, progesterona, hormônio adrenocorticotrópico (ACTH) e hormônio do crescimento.

O nascimento do bebê serve como uma espécie de sinalização de evento de gatilho para o corpo da mãe, que é hora de começar a liberar leite.

O comportamento de amamentação física do bebê – isto é, lábios que sugam as mamas – estimulam as primeiras ejeções, mas, eventualmente, o fluxo de leite pode começar simplesmente, quando a mãe esta pensando no bebê, cheirá-lo ou ouvi-lo chorar.

O processo fisiológico que faz com quê as mamas femininas voltem ao tamanho após o fim de sua formação (as mamas femininas só terminam seu desenvolvimento com a gestação), acontece lentamente junto ao desmame da criança (início de introdução alimentar e desmame lento contínuo).

Então, o que acontece quando, por qualquer motivo, uma mãe não amamenta seu bebê saudável?

De acordo com uma nova teoria proposta pelo psicólogo evolutivo da Universidade de Albania, Gordon Gallup e seus colegas, a decisão de alimentar apenas com a mamadeira equivale, na psiquê da mãe, ao sofrimento da criança.

Pelo menos, é assim que o corpo de uma mulher parece responder à ausência de um lactente em seus peitos na sequência de um parto bem sucedido. Em um artigo publicado no site Hipóteses Médicas, os autores argumentam que a alimentação na mamadeira simula a condição ancestral perturbadora da morte de um bebê:

Não amamentar impede e/ou interrompe todos os processos envolvidos na lactação. Para a maior parte da evolução humana, a ausência ou cessação precoce da amamentação teria sido ocasionada por um aborto espontâneo, perda ou morte de uma criança. Afirmamos, portanto, que, ao nível de sua biologia básica, a decisão (ou não, pois nem sempre depende da mulher) de uma mãe de alimentar apenas na mamadeira, sem saber, simula a perda de criança.

Há pelo menos evidências correlacionais para apoiar esta reivindicação evolutiva. Por exemplo, em um artigo apresentado no início deste ano na reunião anual da Sociedade de Psicologia Evolutiva do Nordeste, Gallup e seus colegas relataram suas descobertas que, entre uma amostra de 50 mães recrutadas em clínicas pediátricas locais e que deram à luz a 4 – 6 meses antes, aquelas que alimentaram com mamadeira atingiram significativamente a Escala de Depressão pós-natal de Edimburgo do que as que amamentaram. Este efeito foi afetado mesmo depois de controlar a idade, educação, renda e status de relacionamento da mãe com seu parceiro atual.

Outra descoberta reveladora foi a de que as mães que dão apenas mamadeiras relataram ter desejado manter seus bebês no colo significativamente mais do que os amamentados, o que os autores acreditam:

… paralelos resultados entre primatas não-humanos, em que, em resposta à morte de um bebê, as mães de algumas espécies são conhecidas por segurar tenazmente, se apegar e levar seus bebês por períodos prolongados depois de morrerem.

É uma ideia interessante (e morbida) de que as mamadeiras estão implicitamente conceitualizando bebês que não sobreviveram ao parto, mas há muitas interpretações alternativas.

Por exemplo, essas mães podem simplesmente querer compensar o tempo de ligação perdida que de outra forma ocorreria durante a amamentação.

Em qualquer caso, se a teoria de Gallup sobre a “falta de naturalidade” da alimentação por mamadeiras simulando a perda de crianças se sustenta em estudos futuros, haveriam óbvias e importantes aplicações clínicas.

Este também seria um excelente exemplo de como as explicações psicológicas evolutivas do comportamento humano podem melhorar a qualidade da vida humana.

É claro que as razões para usar mamadeiras são complexas e muitas, e nem todas as mulheres têm o luxo de escolher nesse sentido. Mas para aqueles que o fazem, a lógica atual pode dar um novo significado à expressão “peito é melhor” – se não for para bebês, pelo menos para as mães.

Leia aqui: Amamentar é de graça, mas ainda é um privilégio de poucas


Minha nota pessoal:

Vamos fazer um recorte importante aqui: esta pesquisa não foi feita no Brasil. E nos EUA, principalmente, há muitas mães que realmente escolhem não amamentar.

Diferente daqui, onde a maioria tem o desejo de amamentar e o que as impedem são problemas que não estão ao alcance das mães brasileiras resolver sozinhas (falta de informação, apoio, incentivo). Isto precisa ficar claro.

Quando pensamos na psiquê materna e em tudo que a cerca, as complexidades envolvidas no ato de amamentar em si, como também em como a maternidade pode ser transformadora na vida de uma mulher, devemos considerar que há muitas camadas e nuances diferentes envolvidas na decisão pela amamentação ou não de uma criança.

O julgamento, que tantas mães se referem, quando veem outras falando sobre os benefícios da amamentação, é também percebido como uma culpa interna simplesmente por não ter conseguido, ter tido apoio e sucesso na amamentação.

Ainda que amamentar seja importante e benéfico para mãe e bebê, confirmado por várias outras pesquisas científicas, nunca tocamos no tema da psiquê materna neste sentido e o quanto nossos sentimentos e transformações internas são desconsiderados neste período tão visceral da vida de uma mulher.

Se você é uma mãe que precisou usar a mamadeira, saiba que este artigo se refere a uma discussão do comportamento fisiológico do corpo e não sobre as razões pelas quais isto pode ter acontecido. Muito menos trata o assunto como um problema de saúde ou te culpa por isto, mas uma curiosidade que pode ajudar mães que precisaram fazer uso apenas da mamadeira, a como lidar com os sentimentos desta decisão ou situação, de forma mais saudável.

Lembre-se também que amamentação mista (mamadeira e peito) é diferente do uso apenas da mamadeira.

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