Uma história de muitas outras mães e a Martha

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Uma história de muitas outras mães

Esta é uma história de muitas outras mães e das pequenas crianças independentes, aquelas que precisam antes do tempo lidar com questões que só deveriam preocupar adultos.

Hoje tenho uma história para contar, que provavelmente é uma história de muitas outras mães. Martha* é a cuidadora de uma moradora idosa do meu prédio, ela tem uma filha de 5 anos que durante a semana provavelmente fica com ela na casa da senhora idosa e vai a escola como qualquer outra criança desta idade. Esta senhora idosa tem seus problemas médicos e hoje precisou ir cedo de ambulância para um tratamento, Martha* precisava acompanhar, é o seu trabalho, e crianças não podem ir junto, certo?

Hoje acordei com um choro de criança, assustada levantei e fui até o quarto do meu filho de 3 anos para ver se ele estava bem, pensei que era ele que chorava. Abri a porta do quarto bem devagar porque ele tem o sono super leve e por um momento parei e fiquei ali olhando no escuro da manhã, eram mais ou menos 5:00h, prestando atenção para ver se o choro vinha dali. Não era o choro dele. Apesar de menos preocupada, não fiquei aliviada. A criança ainda chorava. Olhei pela janela tentando ver de onde vinha, vim até a janela da sala e nada. Liguei na portaria e perguntei se estava tudo bem ou se eles sabiam de algo sobre o choro.

Crianças em algum momento tem o choro igual. Ou nós mães começamos não apenas a decifrar choros como num passe de mágica, como não somos mais alheias a choro nenhum. Eles podem vir do quarto do seu filho, do apartamento ao lado, da rua…nossos ouvidos após a maternidade entram em alerta com o choro de qualquer criança.

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O porteiro explicou a história. Era a filha da Martha*. A mãe teve que deixar ela ali sozinha com ele na portaria esperando o carro da escola e ir com a idosa na ambulância trabalhar. E por isso eu ouvia junto ao choro a frase triste: “Mãe, eu não quero ficar sozinha!“. O que partiu meu coração.

Perguntei se o carro da escola demoraria a chegar, pensando que poderia descer e tentar acalmá-la. Ele disse que já estava vindo e logo ela entraria no carro. Fiquei triste demais, não consegui dormir depois. Em alguns segundos o carro da escola chegou e a filha da Martha* entrou no carro.

Eu não julguei esta mãe. Ela provavelmente não tinha opção. Entre levar uma criança para um hospital ou mandá-la para a escola, a escola no caso dela, provavelmente era a melhor opção. Faltar neste tipo de trabalho por causa da escola também não deveria ser uma opção viável para Martha*. Me perguntei se fosse comigo, como eu faria. Sem ninguém para ficar com um filho, ele precisando ir para a escola e eu precisando ir trabalhar em um hospital como acompanhante. Em uma emergência destas e sem nenhuma outra opção, eu realmente não sei o que faria.

Acontece que a filha da Martha* não gostou nada de ter lidar com este tipo de situação nesta idade e nem deveria mesmo. Eu entendi seu choro e lamentei junto com ela por ser tão pequena e ter que “tentar entender” meio que a força que não tinha jeito, ela precisava ficar ali sozinha com alguém que ela só vê de vez em quando dando “bom dia” ou “tchau”. Também me coloquei no lugar dela e olha, a conta não fecha! Me dei conta que esta é uma história de muitas outras mães e muitas passam por situações como esta todos os dias ou pelo menos um dia na vida passarão.

Nem sempre como mães conseguimos atender todas as necessidades dos nossos filhos. Eles nem sempre estarão felizes e as vezes terão que lidar com situações que pedem deles mais do que eles poderiam dar e então eles irão chorar. E nós vamos chorar junto. Ser “independente” quando tudo o que se precisa é de colo e mãe, não faz o menor sentido. Pensei no quanto pessoas usam essa tal “independência a força” como aprendizado obrigatório para crianças que não deveriam passar por nenhuma situação dolorida antes do tempo. E eu não estou falando da Martha*. A situação da Martha* é aquela situação onde a vida nos obriga a passar um pouco o peso da independência para nossos filhos porque não temos outra saída e sabemos que durante o processo de crescimento deles muitas outras situações como esta virão. E sim, ser independente não é um mar de rosas como a gente iludidos pensava na adolescência. Vida de adulto não é fácil. Ser independente pesa e criança não precisa deste peso sem estar preparada para tal.

Se a própria vida vai se encarregar de nos colocar em enrascadas nos obrigando a pesar um pouco de independência em nossos filhos em situações emergenciais como esta, porque “diacho” as pessoas insistem em, nos outros momentos “querer -ensinar- uma criança” a ser independente?

Deixar chorar pra aprender, deixar sozinho sem a mãe a força e sem necessidade, forçar a ir com gente que não se conhece, insistir pra criança fazer coisas que não quer, forçar desenvolvimento antes do tempo para “crescer”, desfralde cedo demais, escola cedo demais “pra socializar”, ter que dormir noites inteiras antes de 2 anos, entre tantas coisas que exigem de crianças que ainda estão apenas crescendo e sendo crianças. Desmames abruptos do peito, do colo, do abraço, da companhia, de amor, da mãe…a vida é uma série de desmames.

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Não, amigos. Parem com isso. Não vamos colocar pesos em nossos filhos que não são necessários no momento. Um dia na vida, todas nós, por mais privilegiadas que possamos ser e por mais que tenhamos redes de apoio, teremos um dia como o da Martha*.

*O nome foi mudado. Esta é uma história real, qualquer semelhança ou nenhuma com a sua realidade, pode te fazer ter empatia com ela.


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