O risco da expectativa dos pais sobre os filhos

4 min


233 shares
O risco da expectativa dos pais sobre os filhos

Qual é o risco da expectativa dos pais sobre os filhos? Ou melhor, qual é o preço dessas expectativas tanto para os pais frustrados, quanto para os filhos decepcionantes?

 Quando nos tornamos mães e pais umas das questões mais difíceis de equilibrar é a nossa expectativa sobre os nossos frutos. Antes mesmo de nascer imaginamos o rostinho do bebê, que personalidade terá, se os olhos serão azuis, se vai nascer com cabelos, temos a convicção certeira de que irá torcer para o Elvira das Pitangas Futebol Clube e todo o tipo variado de projeções.

Talvez, os primeiros nove meses de espera sejam um pré-teste, para que aos poucos a gente aprenda a trabalhar com essa expectativa em especial, a expectação sobre o tipo de pessoa que esse filho será.

Já nos primeiros dias desejamos bebês calmos e sem cólica. Aspiramos que andem com uma idade exata. Que comam legumes. Com o tempo, vamos aumentando o grau das nossas exigências, quer dizer…expectativas.

O pai louco por futebol tem um filho perna de pau, mesmo assim, o faz assistir todos os jogos quarta e domingo quase amarrado no sofá.

Uma mãe super vaidosa espera uma princesa, mas tem uma filha riponga que prefere bolsa de crochê à uma Louis Vuitton. Quero que o meu filho seja médico, mas ele preferiu abrir uma banca de revistas, não entendo!

Somos tão desencorajadores, quer dizer… preocupados, que sabemos desde sempre quais são as únicas carreiras no mundo que são dignas e aceitáveis e desenhamos trajetórias brilhantes, medalhas, notas dez, diplomas, MBA’s e de preferência um emprego “decente” , continuando o legado.

Nos preocupamos com o que os outros vão dizer e talvez teremos vergonha de contar sobre os nossos filhos nos encontros de ex colegas. Afinal, ninguém quer saber de fracassos.

Projetamos, queremos e aspiramos uma vida perfeita para os nossos filhos, porque como pais sempre queremos o melhor caminho para eles.

E com essa receita desenhada, ensaiada e obrigacional criamos filhos…decepcionantes! Criar expectativas é um dos sentimentos mais despóticos que podemos ter por nossos filhos. São promessas que formulamos para a vida alheia. Promessas para que o outro cumpra.
Leia também:

A expectativa é um sentimento que carregamos diariamente. Esperamos que o dia seja bom. Torcemos para que seja ensolarado!

Almejamos uma boa reunião com o chefe. Desejamos e alimentamos a esperança em acontecimentos futuros e incertos. Mas no fim, sabemos que alguns dias são péssimos, tem mês que chove mais e talvez a reunião com o seu chefe tenha sido uma conversa desgostosa que nunca deveria ter acontecido. Não dá pra prever!

Imaginem então, se é possível ter garantia da perspectiva da vida que a gente sonha para os filhos? Isso não quer dizer que a educação, os princípios e valores devem ser deixados de fora, de maneira alguma.

Aos pais cabe sempre a educação dos filhos, mas uma criação que vise como produto final um bom sujeito e não unicamente um ganhador de Nobel. Mas um ser humano gentil, educado, seguro, altruísta, perseverante, compassivo. E às vezes ele será o oposto desse pacote, será uma má pessoa, até um monstro. E tanto no caso positivo, quanto no negativo, o que ocorre é que os pais na maioria das vezes somente enxergam aquilo que os filhos não são, esperam por coisas que eles não podem oferecer e não conseguem perceber aquilo que o filho realmente é, tendo como resultado um combo de decepções e desapontamentos de ambos os lados.

A idealização dos filhos é um terreno espinhoso que todos os pais caminham descalços, sendo difícil dosar o desejo de sucesso dos filhos, com os projetos pessoais dos pais para aqueles mesmos filhos e ainda mais equalizar essa expectativa, com as características próprias e únicas de cada membro da prole.

Por muitas vezes os filhos até tentam se enquadrar no modo de vida “correto”, mas não é raro que isso fuja do alcance deles e a frustração é geral. Não existem nem filhos e nem pais perfeitos. E é preciso ficar claro que os filhos não são uma extensão dos pais e muito menos uma reedição da sua própria vida, são uma vida nova. Novas chances, novas histórias! E até novos fracassos!

“Criar filhos representa um desafio à capacidade dos pais de se confrontar com o imprevisto que é trazido pela existência singular do outro. Exige flexibilidade, capacidade de elaborar os lutos de suas próprias expectativas depositadas neles e a possibilidade de aprender com a experiência.

O sentimento de existir como uma pessoa própria, singular, representa a base de uma vida feliz. Sonhamos com o que serão nossos filhos, e desta forma investimos neles um olhar essencial, mas é importante que consideremos que nossos sonhos serão substituídos pela realidade possível. Por outro lado, sabemos que nossas sementes frutificarão, em alguma medida, e que isso perpetua o ciclo interminável da vida.”
Fonte:Sociedade Brasileira de Psicanalise

No inicio do texto eu perguntei qual é o preço da expectativa dos pais sobre os filhos, mas na verdade eu não sei exatamente, porém lembro bem dos olhares decepcionados dos meus pais, sei o quanto marca, todavia, o valor é relativo.

Uns sentem menos, outros sofrem mais os desapontamentos. Alguns, nunca se recuperam. Sobre os riscos, temos a chance de formarmos filhos inseguros que se acham perdedores e incapazes, acreditando eternamente no rótulo dado e se tornando o produto. Outros tomam a decepção dos pais como um desafio e mostram que eles estavam errados.

Temos os pais sofrendo por amar os filhos, mas não aceitarem as suas singularidades e por isso não podem voltar atrás ou rever as suas verdades. As possibilidades são diversas, porém todas perda de tempo!

 

As expectativas são difíceis de dosar, são mesmo capciosas! Elas são responsáveis por incontáveis afastamentos de pessoas que se amam e esses distanciamentos ocorrem desde a infância, e esse é o perigo, não se sabe quando o “copo vai encher”.

No dicionário, a decepção é uma ilusão perdida, mas na vida dos pais (e das pessoas como um todo) é uma oportunidade de enxergarmos as coisas como elas realmente são, o que faz com que as relações se afinem de maneira mais leve e sólida.

Eu como mãe eventualmente decepcionada e como filha tantas vezes decepcionante, acredito que o amor incondicional pelos filhos é o início de tudo, mas a empatia é a base mais importante.

Não somente na dinâmica familiar, mas como cidadãos desse mundo. É fundamental entender o outro. A família é uma composição cheia de gente “da mesma família”, mas cada membro é um indivíduo completo das suas características e vê o mundo de uma forma.

Ser empático e se colocar de forma objetiva e racional no lugar da outra pessoa, é o caminho menos tortuoso e desgastante dessa relação tão linda e desafiadora entre pais e filhos.

Sejamos amorosos, empáticos e simpáticos. Vamos evitar sonhar com filhos perfeitos nos nossos termos, de forma que não lamentemos tanto pelos decepcionantes, para que não nos afastemos deles pouco a pouco, a cada decepção nova que a gente mesmo criar a partir das nossas expectativas tão egoístas. E que a gente almeje filhos possíveis, com certeza teremos mais adultos realizados, seguros, felizes e principalmente, orgulhosos de si mesmo!


Like it? Share with your friends!

233 shares

What's Your Reaction?

Uau Uau
0
Uau
Gostei Gostei
0
Gostei
Amei Amei
2
Amei
Ouwn Ouwn
0
Ouwn

Deixe um Comentário

comments

error: Este conteúdo é protegido pelas leis de direitos autorais, não copie, compartilhe. :)