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Seu filho precisa apanhar, ou você precisa aprender a educar?

Eu vejo o tempo inteiro em grupos maternos, mães querendo saber sobre o que as outras mães acham, perguntam se elas batem nos filhos e o que pensam sobre o assunto. Espera aí, estamos em 2016 e se você ainda acha que seu filho precisa apanhar, então o problema está em você.

No Brasil, desde 2014, a Lei da Palmada está em vigor e proíbe qualquer tipo de castigo físico e agressão na educação dos filhos.

Primeiro e mais importante que tudo: violência gera violência.

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Segundo que a única coisa que você ensina para o seu filho batendo nele é que “ok” ser agredido ou “ok” bater nas pessoas para resolver coisas, que com uma conversa você resolveria normalmente. Não vivemos mais na era das cavernas. Apesar de existir pessoas que insistem em puxar mulheres pelos cabelos pra levar para as suas tocas, a isto hoje em dia damos o nome de violência e estupro.

Existem pessoas que ainda hoje maltratam seus animais batendo neles. Há alguns dias uma senhora foi filmada e presa por agredir com um pedaço de pau o seu cachorro que depois foi acolhido por uma clínica e tratado. As pessoas ficaram horrorizadas e eu também.

Mas se um pai ou mãe aparece agredindo o filho, as pessoas costumam chamar isto de “educar”. Usam inclusive aquela velha máxima de quem não quer pensar no assunto: “apanhei a vida inteira dos meus pais e mereci”. Nunca vi tamanho complexo de inferioridade:  Achar que se o pai ou a mãe se abaixasse e com calma e amor dissesse: “Filho, vem cá, isso está errado”, esta pessoa que cresceu apanhando não seria capaz de entender.

O brasileiro apanha muito na infância ou na adolescência. Em uma pesquisa de 2010, realizada com 4.025 pessoas com mais de 16 anos em 11 capitais do país, 70,5% sofreram alguma forma de castigo físico quando jovens, segundo o cientista social Renato Alves, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP).

Bater não educa.

Segundo um estudo dos canadenses Ron Ensom e Joan Durrant, da Universidade de Manitoba e do Hospital Infantil de Eastern Ontario, respectivamente, nenhuma punição física tem efeito positivo – a maior parte tem, na verdade, efeitos negativos. Os cientistas analisaram 36 mil pessoas durante 20 anos.

Uma outra pesquisa realizada pelas universidades do Texas e de Michigan, nos EUA, e publicada no “Journal of Family Psychology“, mostraram que crianças que apanham dos pais possuem mais chances de apresentar, na vida adulta, comportamento antissocial e agressivo, desenvolvendo até 13 problemas mentais e sociais.

Foram colhidos para esta pesquisa dados de 160 mil crianças, registrados durante 50 anos e analisados pelos estudiosos confirmando que “palmadas educativas” e outros tipos de agressões são responsáveis por problemas como baixa autoestima, relacionamento ruim com os pais, baixa habilidade cognitiva, entre outros.

Em uma entrevista ao site de ciência e saúde da “Vox”, a psicóloga Elizabeth Gershoff avaliou por 20 anos estudos de comportamentos de crianças que foram submetidas à palmadas durante a infância, e chegou-se à conclusão que não existe qualquer relação entre bom caráter e boas maneiras com receber palmadas dos pais.

Ah, mas a gente fala, fala, fala e não adianta!

Ué? Primeiro se pergunte quantos anos seu filho tem. Geralmente bebês e crianças até uns 10 anos, as vezes mais, são teimosas e desafiadoras. Faz parte do ser em formação delas. Cabe ao adulto, bem resolvido e já formado (teoricamente) mostrar pra ela que ele tem o controle da situação e sabe o que é melhor pra ela. Fazendo sabe o quê? Tendo autocontrole e maturidade emocional.

E autocontrole e maturidade emocional meus caros, passa muito longe da violência.

Quem cresce apanhando, geralmente tende a repetir o mesmo com os filhos. O ciclo é interminável. É muito difícil para alguém que só conheceu a violência como forma de educar, quebrar esta corrente e tentar educar sem partir para a agressão.

Eu não cresci apanhando, mas já apanhei. Meu pai, hoje já falecido, teve lá seus deslizes uma ou outra vez, com meus irmãos também. A primeira e última vez que apanhei dele era pré-adolescente e apanhei sem motivo. O questionei, coisa que faço até hoje. Mas não era motivo para apanhar, hoje eu sei. E eu só apanhei naquele dia porque meu pai estava chateado com outros assuntos, que diziam respeito a ele e não a mim. E, repetindo, hoje eu sei.

Eu não vou descontar minhas frustrações da vida batendo no meu filho. Levanto essa bandeira todos os dias. E também não vou achar que tenho poder sobre seu pequeno corpo para bater nele. Isto além de errado, é de uma covardia sem tamanho. Quantas vezes crescemos ouvindo: “Bate em alguém do seu tamanho!”

E por que, para nossos filhos, o ditado não serve? Olha o seu tamanho, olha o dele. É injusto.

“Ah, mas é só uma palmadinha, pra esquentar o bumbum.”

Jura? Que tal se, de repente, seu chefe não curtisse algo que você fez e te desse umas palmadinhas pra esquentar sua bundinha? Não ia doer, aposto. Não no corpo físico, ia doer na alma. Imagina alguém que você vê como seu superior, ou às vezes até alguém a ser seguido e admirado (e o exemplo do chefe é bobinho viu), não aprova algo em você e te dá umas palmadas. “Que humilhação!” Você iria pensar.

Aposto que já se sentiu humilhado em seu trabalho por muito menos. As vezes palavras humilham. Atitudes humilham.

A violência é só a parte doída fisicamente e a constatação que você está subjugando alguém ao seu jugo sem dó nem piedade, e mostrando para este alguém que ele não é digno de receber sua paciência e compreensão quando erra. É isso que você faz com seu filho quando bate nele.

Educar dá trabalho. Bater é o caminho fácil.

Sabe por que? Porque a gente tem que se controlar. A gente precisa como pais desafiar as regras que nos foram impostas, e que nós mesmos nunca concordamos, mas estão tão intrinsicamente dentro de nós, que as vezes sem perceber, reproduzimos. Educar é um enfrentamento de você contra tudo o que você aprendeu até hoje e sobre como você foi educado, sobre como quer educar. Educar um filho com respeito e gentileza é um desafio diário e se você consegue, você está sendo forte.

Se mostrar forte emocionalmente é muito mais valioso do que se mostrar forte fisicamente agredindo seu filho. Quem liga pra força que tem sua palmada se o que ela vai trazer é humilhação, tristeza e medo? A força que você mostra sendo uma pessoa emocionalmente estável e justa vai fazer brotar sementes. Em você e no seu filho.

Vale lembrar que não basta apenas não bater. Sair gritando feito um louco e xingando a criança também é um tipo de agressão que não serve para nada. Quer apostar? Lê esse artigo de novo trocando o “bater” por estas outras coisas. Dá no mesmo. E a ideia não é ser permissivo com a criança, mas orientar e educar com serenidade, positivismo e amor. Você vai precisar falar muitos “nãos” e se impor, mas faça isso da melhor forma possível.

Se questione, se desafie. Vença estas barreiras impostas e não continue seguindo uma manada que prefere não pensar a respeito.

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