O desmame não é um evento, mas sim um processo

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O desmame

O desmame parece ser um dos assuntos mais comentados depois ou, junto do tema, sono do bebê.

O desmame também é um dos assuntos que mais deixam dúvidas, incertezas, culpas e claro, o assunto de interesse geral da “nação” que circunda a mãe.

Além disso, o desmame geralmente é visto como um evento, que acontece de forma repentina e abrupta na vida da criança. As pessoas geralmente acham normal e tranquilo, retirar o peito da criança de repente ou esperam que ela largue o peito da mãe de um dia para o outro.

Acontece que o desmame não é este evento como todos esperam, ele é um processo que pode ser longo e acontece de forma lenta. Isto claro, quando a mãe e principalmente a criança tem seu tempo respeitado.

Longe de incutir culpas ou apontar dedos, falar sobre a melhor forma de conduzir um desmame é informar. E é também tentar melhorar esta relação durante este processo para que todos os envolvidos fiquem bem.

Obviamente que a criança ou o bebê, são os maiores prejudicados quando o desmame acontece de forma abrupta. Para estes pequenos estreantes de mundo, a mama materna é um ente. Um “alguém”. Além da mãe e que como a mãe, significa a vida. Isto porque é ali que a criança estabelece sua relação alimentar de forma física e emocional. E é por isso que dizemos que quando o bebê perde a mama repentinamente, ele sofre um luto.

Para a mãe também é dolorido. Não poder amamentar pode gerar sentimentos tão dolorosos quanto a perda. Escrevi mais sobre isto aqui: “Mamas em luto: como alimentar um bebê apenas na mamadeira imita a perda no cérebro das mães”

Exatamente por todas estas questões emocionais que envolvem mãe e bebê, não podemos dizer de forma leviana que a amamentação é apenas alimentação. Ela é alimentação, mas não somente. É também alimento emocional. Leia mais aqui: “Amamentar é mais do que alimentar: 10 motivos que tornam leite materno alimento pra alma”.

Existem uma série de motivos, comentados no link do artigo acima, que mostram o quanto a relação que a criança estabelece com o peito materno vai muito além de simplesmente “encher sua barriga”.

Você já deve ter visto circulando na rede um meme que tenta diminuir a culpa de mulheres que não amamentaram e não conseguiram fazer outras coisas na maternidade consideradas ideais. Nele, uma lista de opções se mostram para a mãe e uma terceira como alternativa que atenderia o bebê independente do meio. O que mais me incomoda naquele meme é o fato de colocarem “dar mamadeira” e “amamentar” e na terceira opção, circulam o “alimentar”.

Ora, claro que se uma criança não pode mamar no peito por uma série de motivos, ela estará alimentada com a opção disponível do mercado. Mas não se enganem, alimentar com mamadeira e dizer que “tudo bem” não torna a culpa materna menor.

Quem acha que torna, esta iludido. As mães que não conseguem amamentar sentirão esta culpa, independente de terem tentado muito ou pouco, a culpa virá. E nenhum meme dizendo que “tanto faz, que o que importa é alimentar” lhe fará sentir menos culpa, simplesmente porque ela mesma sabe, se havia o desejo de amamentar antes, ela sabe o porquê. E se ela sabe o porquê, dizer para esta mulher que apenas alimentar é suficiente, é desmerecer o seu esforço inicial nas tentativas de amamentar.

É mais honesto dizer para esta mãe: Você fez o que podia fazer com a informação e possibilidades que tinha naquele momento. Seu colo, amor e atenção, irão criar o vínculo que você tanto esperou ter com a amamentação.

Sejamos sempre honestos com a mãe. E vamos informar com responsabilidade. Deixem que a escolha e a culpa que ela possa ou não sentir, seja seu evento privado e que ela com o tempo aprenda a lidar com isto.

Todas nós estamos tentando lidar com culpas depois da maternidade, sejam sobre amamentação ou outros temas dos quais não atingimos o ideal. Aprender a lidar com estes sentimentos, com ajuda terapêutica se for preciso, é amadurecer.

Esclarecidas as questões “informar não é culpar“, vamos voltar para as questões sobre o desmame não ser um evento.

As relações que estamos estabelecendo com o mundo hoje são imediatistas e assim, achamos que tudo deve acontecer de uma hora para outra. Que tudo deve ser rápido e certeiro. E que o tempo que as coisas realmente levam não importa. O que importa é o fim e não o meio.

Com o desmame costuma acontecer a mesma coisa. O que importa é que a criança deixe de mamar e o quão mais rápido isto acontecer, melhor. Isto é bom para quem? Para a criança é que não é.

Se você correu tantos metros e chegou tão longe, porque não encerrar esta jornada com chave de ouro? Desmamar de forma abrupta e com estratégias violentas como passar coisas ruins no peito ou usar a técnica do “mamá dodói” é como participar de uma corrida e quando estiver quase na linha de chegada, tropeçar. Além de tropeçar, sair derrubando desastrosamente todos os outros corredores (aqui em metáfora = bebê).

Que grande esforço jogado fora, não é mesmo? Porque sejamos sinceras, amamentar não é fácil. Amamentar de forma prolongada, mais desafiador ainda. Terminar de qualquer jeito? Não faz o menor sentido.

O desmame abrupto, visto como evento imediato, causa sofrimento no bebê e na mãe também. E ter na memória um momento de desmame sofrido e doloroso será uma lembrança ou um trauma carregado pela vida inteira, pela mãe e por seu filho, não importa a idade dele.

Apesar de imaginar o quanto você como mãe deve estar cansada (amamentei o meu por 3 anos, antes que alguém diga que não sei do que falo), eu quero te propor um último desafio para encerrar com chave de ouro esta história: vai com calma. Respira fundo e pense que o momento do desmame é um processo. Não um evento.

Seja gentil no processo do desmame, assim como você foi gentil para amamentar todo este tempo. Peça ajuda se estiver esgotada, não tenha receio de pedir, é necessário.

Não se coloque em uma posição das que dão conta de tudo, porque quando a conta chega, estamos exaustas demais e descontando em quem menos merece. Achando que o grande mal de nossa rotina é amamentar, quando na verdade é não ter ajuda e apoio. Siga o processo do desmame com calma.

Dê passos para traz se for necessário, para que quando você for avançar de novo, seja de forma assertiva e amorosa. Diga não ao evento frio, imediatista e abrupto, abrace o processo de desmame de um jeito gentil, amoroso e aprenda com ele.

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