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Há muitas dúvidas se leite materno atrapalha a absorção de ferro.

Hoje em dia, quando dizem que o leite materno atrapalha a absorção de ferro, a afirmação não esta embasada cientificamente e pode parecer um certo descuido dos profissionais que continuam repetindo esta idéia.

Leite materno não atrapalha a absorção de ferro e isto precisa ficar muito claro para todos.

A confusão acontece principalmente porque geralmente as pessoas associam o “mamar” com o “aleitamento com leite artificial” e repete a mesma indicação para ambos. Leite materno (mamar) não atrapalha a absorção de ferro, já o “aleitamento com leite artificial” sim.

O ferro no leite humano é bem absorvido:

“49% de absorção de leite materno contra 10% do leite de vaca e 4% da fórmula fortificada pelo ferro. Os níveis elevados de lactose e vitamina C no leite humano ajudam a absorção de ferro.” La Leche League

Referências freqüentes ao leite humano como sendo de baixo teor de ferro são encontradas nas recomendações de alimentação infantil e na literatura sobre alimentação infantil.

A literatura sobre alimentação infantil produzida pela indústria de alimentos para bebês, tanto para lactentes quanto para alimentos complementares, tendem a explorar as preocupações dos pais. Eles aproveitam disto distorcendo alguns fatos e os confundindo.

Em um estudo de Lehman e Gray-Donald, eles relataram a prevalência de anemia ferropriva em uma população de crianças desfavorecidas em Montreal.

O aleitamento materno foi iniciado apenas em 17% das 220 mães que participaram do estudo e, por 4 meses, apenas 6% estavam recebendo leite materno (não se menciona a amamentação exclusiva).

A alimentação artificial de várias formas foi praticada por esta população – leite de vaca integral, fórmula rotineira ou fortificada, alguns comiam cereais fortificados com ferro.

Assim, em uma população com taxas de amamentação muito precárias, a taxa de prevalência para baixos níveis de ferritina foi de 25%.

Curiosamente, a falta de consumo de fórmula fortificada de ferro não foi associada a um risco aumentado de anemia.

Este estudo, financiado por Ross Laboratories, recomenda o fornecimento de fórmulas fortificadas gratuitas a crianças desfavorecidas e não menciona a promoção e apoio à amamentação para mães e seus bebês.

Surpreendentemente, as recomendações de uso de fórmulas fortificadas desde o nascimento são justificadas com base em estudos com conflitos de interesse, onde as próprias empresas dos leites artificiais fazem os estudos e dizem apenas aquilo que lhes convêm.

Em um outro estudo, Greene-Finestone e Feldman selecionaram aleatoriamente 320 mães dos registros de alta de quatro hospitais de Ottawa. O aleitamento materno (não definido como exclusivo) foi iniciado em 76%.

A prevalência de deficiência de ferro foi de 18,7% para aqueles que nunca mamaram no peito, 14,4% para aqueles que mamaram no peito por menos de 6 meses e 10,7% para aqueles que mamaram no peito durante seis meses ou mais.

Eles concluíram que a deficiência de ferro é um risco relativamente baixo em uma população em geral, onde as taxas de amamentação são altas, os pais possuem cuidados de saúde universais acessíveis e fontes confiáveis ​​de alimentos complementares ricos em ferro disponíveis.

O efeito protetor da amamentação foi atribuído à alta biodisponibilidade do ferro no leite materno (49%).

 As recomendações atuais estão atualizadas?

Dado a evidência esmagadora de que o leite materno fornece a melhor forma de ferro prontamente absorvível no formato e quantidades corretos, por que o aleitamento materno tem pouco mérito em suas recomendações? Não deveria a primeira recomendação garantir o apoio para que todas as mães amamentassem?

E mais, o mito de quê leite materno atrapalha a absorção de ferro já não deveria estar extinto hoje em dia com tanto acesso a informações, pesquisas e estudos científicos a respeito das qualidades do leite materno? Principalmente sendo ele, um meio de melhor absorção de ferro pelo organismo?

Bebês a termo possuem reservas suficientes de ferro para os primeiros seis meses de vida. Uma outra pesquisa sobre a quantidade de ferro em bebês exclusivamente amamentados, documenta a ingestão adequada por mais de seis meses.

O leite materno contém uma proteína chamada lactoferrina que se liga a qualquer ferro extra que seu bebê não usa. Isso mantém as bactérias intestinais nocivas sob controle porque, de outra forma, elas crescem e se multiplicam se houver excesso de ferro. Se este sistema está sobrecarregado com suplementos de ferro no entanto, as bactérias nocivas crescem, potencialmente levando a taxas de infecção mais altas, diarréia e até hemorragia microscópica. Muito ferro pode levar à constipação. (Womanly Art of Breastfeeding, 2010, p. 159 e 249)

Leia também:

Referências:

1. Lehman, F. et alIron Deficiency anemia in 1 year old children of disadvantaged families in Montreal.Can Med Assoc J. 146: 1571-1576,1992
2. Greene-Finestone, L. et alPrevalence and Risk Factors of Iron Depletion and Iron Deficiency Anemia among Infants in Ottawa-Carleton. J. Can. Diet. Assoc. 52:20-23, 1991 
3. Canadian Pediatric Society. Meeting the iron needs of infants and young children: an update Position Statement by the Nutrition Committee. Can Med Assoc J;144:1452-1453, 1991
4. Ziegler, E. E. and Fomon, S. J. Strategies for the Prevention of Iron Deficiency: Iron in Infant Formulas and Baby Foods. Nutrition Reviews 54:348-354,1996
5. Weinberg, E.D. Iron and susceptibility to infectious disease. Science;184: 952-956, 1974
6. Haddock, R.L. et alInfant Diet and Salmonellosis. Am J Publ Health;81:997-100013, 1991
7. Lonnerdal, B. Hernell, O. Iron, zinc, copper and selenium status of breast-fed infants and infants fed trace element fortified milk-based infant formula. Acta Pediatrica. 83:367-373,1994
8. Beutler, E. How little we know about the absorption of iron. Am J Clin Nutr 66:419-420,1997
9. Pisacane, A. et al Iron status in breast-fed infants. J.Pediatr 127:429-341,1995
10. Mohrbacher, N. Stock, J. The Answer Book La Leche League International, Shaumburg, Illinois. p.144, rev. 1997

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