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É preciso falar sobre o desmame comercial praticado em prol do consumo de leites artificiais em detrimento da saúde infantil.

Todos sabemos que o leite materno é supremo em propriedades para o bebê e esta acima de qualquer outro em qualidade. A supremacia do leite materno é indiscutível e inabalável, veja mais sobre isto aqui:  A Supremacia do Leite Materno.

Então, por que vivemos um paradoxo onde ocorre a troca do leite materno pelo leite artificial na maioria dos casos sem a menor necessidade, mesmo todos sabendo que o leite materno é supremo? Porque ainda hoje se pratica o desmame comercial? O que justifica tal comportamento na sociedade?

Como essa idéia distorcida de que o leite da mãe é fraco e que ela precisa complementar se fixou de forma tão forte na cabeça das pessoas?

Marketing. Estratégias de comunicação feitas durante o tempo que equipararam de forma leviana a qualidade de ambos.

Um dos maiores problemas das indústrias que produzem leite artificial hoje é fazer com que este leite artificial se assemelhe ao leite materno. Eles não conseguem isto porque o leite materno além de todas as qualidades que possui, é praticamente um organismo vivo que se adapta e muda constantemente as necessidades do bebê.

É uma dinâmica tão esplêndida da natureza que até hoje indústria nenhuma conseguiu copiar ou até mesmo chegar próximo a sua grandiosidade.

A questão é que o marketing adotado cumpre seu papel de forma muito bem feita, porque se direciona a mães em um momento em que elas estão frágeis e inseguras se colocando como a resposta para os seus problemas.

Este marketing vem vencendo a batalha a alguns anos de tal forma que mães cantam em coro: “Se não fosse o LA, meu filho estaria passando fome…”

É triste. Muitas destas mães não sabem que seus filhos não morreriam de fome somente com o leite do peito, muito menos se tivessem o apoio dos médicos que os acompanham para incentivá-las a continuar com a amamentação.

Em vez disto, temos uma associação paradoxal entre uma grande indústria que produz alimento artificial infantil e a Sociedade Brasileira de Pediatria. Em vez disto, vemos médicos serem motivo de chacota na internet até mesmo por outros médicos por se comportarem de forma infantilizada experimentando papinhas industrializadas (mãe, a melhor papinha é a que você faz em casa, sem conservantes e químicas), leites artificiais, ora, só faltou uma mamadeira para a cena parecer o crime perfeito contra o aleitamento materno!

E quando tudo isto começou?

“Os responsáveis pela comercialização dos alimentos industrializados para lactentes apresentavam seus produtos como uma alternativa ideal para a mulher urbana, que tinha necessidade de se integrar ao mercado de trabalho.” (Goldemberg. 1988)

Para se ter uma idéia do caos que a indústria causou tentando substituir o leite materno, por volta de 1873 o leite condensado era vendido como alimento infantil onde a mãe o misturava com água ou farinhas lácteas misturadas em água (produtos industriais cheios de açúcar e conservantes) e estes eram considerados alimentos com maior aporte nutricional que o leite materno, um bebê saudável era um bebê gordinho e fofinho (ainda hoje tem mães e médicos que pensam isto, não levando em consideração a genética do bebê que pode sim, ser “mignon”).

Hoje em dia, uma mãe bem informada veria isto com horror.

Mas antes, elas acreditaram. E muitas crianças morreram de desnutrição porque este tipo de alimento de forma alguma tinha todos os nutrientes que um bebê precisa, muitas crianças morreram de diarréia porque a água misturada ao tal leite não era adequada para recém-nascidos, hoje sabemos que água pode ser oferecida apenas depois dos sexto mês de idade, saiba porque aqui: Precisa dar água para bebês amamentados exclusivamente?.

A classe médica na época passou a estimular de forma subliminar o consumo de leites artificiais, a única questão que salvava muitas mães deste disparate era o preço dos leites artificiais (olha o mito de quê amamentar é coisa de pobre aqui…).

Ainda hoje vemos médicos desestimulando o aleitamento materno de forma subliminar.

“Se mês que vem o peso não estiver dentro da tabela, teremos que complementar…”
“Esta cansada demais, complementa…”
“Seu bebê chora demais, complementa…”

Entre várias outras estratégias que minam aos poucos a motivação daquela mãe que vai ao consultório em busca de apoio e incentivo. Outras já saem da maternidade com uma receita padrão de leite artificial.

“A indústria lançou mão de campanhas promocionais, com o grande objetivo de influenciar a difusão de informações científicas sobre nutrição do lactente, além de tentar monopolizar e se apropriar do saber médico.” (Goldemberg, 1988)

Propaganda enganosa. Utilização de profissionais de saúde como promotores de venda no ambiente hospitalar e em consultórios, promoção de eventos científicos, entre outras estratégias de marketing eram usadas a décadas atrás para convencer a todos que o leite artificial era melhor ou equiparado ao leite materno.

Isto te parece muito distante? Não, isto acontece ainda hoje. E ainda hoje mães são enganadas.

O papel da mulher na sociedade vem mudando ao longo do tempo. Estas mudanças de representações foram apropriadas pela indústria criando um condicionamento sociocultural que promovia o desmame precoce sempre que uma mãe entrava no mercado de trabalho.

É possível manter a amamentação mesmo voltando ao trabalho, hoje dispomos de informação suficiente para a mãe se planejar em relação a este momento, saiba sobre isto nestes 3 artigos ótimos: Volta ao trabalho e amamentação, Como ordenhar leite materno e Como descongelar e oferecer leite materno.

Dados da saúde pública no final da década de 70

A mortalidade infantil era de 88 para 1.000 no país, de 124 por 1.000 no Nordeste, a desnutrição crônica vitimava 48% da população brasileira, o desmame no primeiro mês de vida atingia 54% dos lactentes na cidade de São Paulo e 80% em Recife, 50% dos pediatras prescreviam mamadeira e 90% aconselhavam o uso de água no intervalo das mamadas, 60% das mulheres brasileiras não faziam exame de pré-natal. (Inan,1991)

Diante destes dados houve uma mobilização social em favor da amamentação a partir da década de 80 que perdura até hoje, já que algumas idéias a respeito de qual é o melhor alimento para lactentes ainda parece ser uma dúvida em muitos consultórios médicos e na sociedade.

A indústria se aproveita da falta de informação para lançar mão de estratégias que te faz acreditar que o discurso que ela dissemina é real.

Não caia neste golpe de marketing, fique atenta. Não existe leite melhor para o seu filho do que o seu. Leite artificial serve para emergências, necessidades reais do bebê e não como prática de uso comum e diária, deve ser indicado por um médico (atualizado). É preciso saber avaliar esta necessidade.

E se você tiver problemas em relação a amamentação, busque ajuda profissional e especializada em amamentação. Se cerque de profissionais que apoiam o aleitamento materno.

Meu objetivo é informar de forma responsável, falar a verdade e te incentivar a buscar um profissional de saúde que seja pró-amamentação, pois sim, eles existem. Tenha Fé.

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