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Em tempos de crise o que não falta é amor…

Um dia, a vida que era estável e linear dá uma guinada e tudo muda. Às vezes é uma simples troca de emprego, ou a falta de um. Outras vezes a rotina precisa de mudanças, ou mudamos de casa, de cidade. Existem também as mudanças no padrão de vida e no nosso caso, aconteceu tudo junto ao mesmo tempo.

Escuto e leio muito, com uma certa tristeza, os inúmeros textos que falam muito mal da minha geração, em específico, os que estão na casa dos trinta, rotulados dos que idealizam tudo e não realizam nada.

Muitas vezes chamados de mimados e chorões, de geração mimimi, mas falaremos disso depois, ou em outro texto.

Voltando às mudanças emergenciais que bagunçam as nossas vidas e nos fazem obrigatoriamente respirar e colocar os pés bem fixos no chão, hoje venho para falar como nós estamos passando por esse momento.

Em um breve resumo: trocamos um emprego estável e um salário garantido no final do mês em empresa familiar, uma casa dos sonhos nossa quitada e perfeita, por uma gigantesca mudança ao comprarmos uma franquia durante a crise, nos mudarmos de cidade e morarmos de aluguel em um apartamento que é 1/5 do tamanho da nossa casa, com dois filhos e os tradicionais boletos à pagar.

Em quatro dias, após uma fatídica reunião que ocasionou em uma demissão, fizemos um levantamento dos nossos bens liquidáveis, decidimos onde iríamos morar e o que iríamos fazer, vendemos muitas coisas e fiz um mega brechó em casa para juntar a maior quantidade de dinheiro possível, porque a gente sabia que não ia ser fácil, se para nós adultos todas essas mudanças causavam uma ansiedade enorme, eu fiquei me questionando e ainda fico, como seria para os meninos.

Tudo bem que a gente já vivia com a grana contada, não éramos esbanjadores e tudo o que tínhamos e consumíamos era sempre planejado na ponta do lápis, mas era diferente porque tínhamos o salário certo e a casa quitada.

Pois bem, nos mudamos em 50 dias exatos, rumo ao incerto, com muito menos dinheiro do que a gente imaginava e com os gastos da implantação da nossa franquia somente subindo.

O que já era apertado ficou espremido, decidimos manter as crianças em escolas particulares e racionar tudo mais que fosse possível racionar em casa.

As nossas refeições antes feitas musicalmente na nossa cozinha à la Casa Cláudia, viraram uma marmita e meia de comida que vinha misturada e que a gente dividia em quatro, onde eu assumia o chuchu estranho e deixava um pouco mais de panqueca para os meninos.

As idas ao mercado cada vez mais escassas, exibiam no nosso carrinho somente o extremo necessário e algumas vezes eu olhava pro meu mais velho e dizia, pode escolher um coisinha pra ti e ele muito preocupado pegava uma coisinha bem coisinha mesmo.

As tarefas de casa foram todas divididas e passaram a ser executadas com mais afinco por todos nós, o nosso mais velho de 12 anos passou a ser o responsável pela louça, pelo banheiro dele e a retirada dos lixos, assumindo também o irmão pequeno enquanto eu e o meu marido nos revezávamos entre eles e a nossa loja recém inaugurada, onde tínhamos colocado todo o nosso dinheiro e precisava girar.

Sempre que via ele ali, de barriga na pia, lavando a louça eu ficava com o meu coração rachado e doído, por um lado orgulhosa daquele menino que não reclama de nada, que entende a nossa nova situação e por outro lado triste por querer que ele estivesse jogado no sofá comendo um monte de porcarias estilo férias.

E é nesse ponto que eu queria chegar, muito embora financeiramente a nossa vida estivesse caído muito e mudado totalmente, sempre sobrou amor!

Mas mesmo que houvesse amor e muitas gargalhadas na divisão da marmita, muitas voltinhas de bicicleta na praia e sofá em família eu nunca parei de me sentir culpada, pois o pequeno não entende o que acontece, mas o mais velho sabe, sabe bem…

Na sua ingenuidade juvenil comentou nesses dias de férias que tem passado na casa da madrinha, que lá sim é férias, que tem tudo que ele gosta de comer, que tem os passeios e tudo muito longe do fantasma da economia extrema e das tarefas diárias.

Chorei, fiquei down a semana toda, ainda estou um pouco. Mas no meu papel de adulta, sou eu quem precisa aceitar que essa é a nossa situação atual e que ele não nos ama menos por isso. Além, que fica com uma ponta de orgulho de passar por essa crise junto conosco, que entende que eu e o papai estamos ralando muito e fazendo o possível.

Lembrei de uma dessas tardes que ele ficou com o pequeno e teve a emergência fralda super cheia em que eu corri pra casa desesperada, cheguei toda escabelada entrei porta à dentro e vi os dois sentados no chão brincado e ele numa boa, plácido, tranquilo e feliz com o irmãozinho.

São nessas horas de maior aperto que a gente percebe que damos o melhor de nós, tudo de nós e achamos que não é o suficiente e às vezes não é mesmo. O meu filho merece tudo, os melhores colégios, cursos extras, os legumes preparados por mim do jeito que ele gosta, o chocolate branco que ele adora, um videogame novo, férias de verdade, mas essa não é a nossa realidade.

É exatamente nessas horas que eu percebo que quem sofre mais com isso sou eu por não poder proporcionar para ele um mundo de coisas e não ele por não tê-las, na verdade ele pouco pensa nisso.

E então, são nessas horas mesmo que a gente precisa parar e colocar os fatos na balança e aceitar que coisas são somente coisas e amor é de graça e nutre todas as necessidades.

Parece clichê, mas é assim mesmo. As maiores gargalhadas que escuto dos meninos são quando eles estão no mar conosco, na água por horas, murchos mas extremamente felizes.

Nessas horas me lembro do nosso mais velho feliz com um rolo de um quilômetro de barbante que rapidamente ele amarrou nos carrinhos de controle remoto e saia puxando por ai… o que é preciso mesmo são poucas coisas, mas o amor, o aconchego são fundamentais.

Seguimos a nossa batalha diária da pindaíba, como brincamos, para ver o nosso negócio prosperar, tentamos ficar mais tranquilos e entender que é uma fase e que na nossa decisão de mudança era previsível o caminhão de dificuldades.

Dificuldades essas que solidificam ainda mais a nossa família, que deixam os nossos dias mais turbulentos e completos, são as dificuldades que nos fazem voltar para casa depois de um dia cheio e ver aqueles meninos nos esperando ansiosos para uma voltinha de bicicleta na orla da praia…sempre tem a praia e sempre tem nós.

Que a gente como pais saiba sempre que o mais importante é estarmos lá, dando o melhor de nós, proporcionando a vida que podemos, sendo gratos pelo que temos e criando os nossos filhos com amor sem economias.

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