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Efeitos ao longo da vida da amamentação em saúde mental comprovam que amamentar protege contra a depressão.

E não apenas de mães, amamentar protege contra a depressão dos bebês na vida adulta também.


Artigo escrito por: Kathleen Kendall-Tackett, PhD, IBCLC, FAPA no site: Womens Health Today
Tradução e adaptação livre: Suelen Maistro


As primeiras experiências de vida prepararam o cenário para a saúde física na vida adulta. Reduzir o estresse tóxico precoce é fundamental para prevenir doenças em adultos (Shonkoff, 2016).

A amamentação é uma maneira importante de diminuir o estresse tóxico precoce. Estudos recentes demonstraram que a amamentação aumenta o bem-estar físico e mental dos bebês e esses efeitos ultrapassam a composição do leite.

A capacidade de resposta materna é fundamental para entender esses efeitos a longo prazo. Quando as mães respondem consistentemente às pistas dos bebês, preparam o cenário para a resiliência ao longo da vida em sua prole. E a capacidade de resposta está inserida no relacionamento da amamentação. Vemos isso refletido na saúde mental das crianças.

Em um estudo de 2.900 pares mãe-bebê, a amamentação por um ano foi associada a uma melhor saúde mental infantil em todas as idades até aos 14 anos (Oddy et al., 2009). A duração mais longa da amamentação foi associada a uma melhor saúde mental infantil em cada ponto de avaliação.

Amamentar protege contra a depressão materna:

A depressão materna tem um efeito negativo bem documentado sobre bebês e crianças. É prejudicial porque interfere na capacidade das mães em responderem aos seus bebês. As mães deprimidas tendem a se desvincular de seus bebês e não conseguem responder às suas necessidades.

Os bebês experimentam isso como altamente estressante, e podem haver efeitos para toda a vida ao serem criados por uma mãe ou pai com depressão crônica (Field, Diego, & Hernandez-Reif, 2009; Kendall-Tackett, 2002, 2010; Weissman, 2006).

As experiências ‘Still-Face Mother‘ de Edward Tronick são um análogo do que acontece com a depressão materna. Você pode ver os efeitos de não responder aos bebês nesse vídeo:

Esses efeitos são duradouros. Um estudo que acompanhou crianças de pais deprimidos por 20 anos, comparou-os com um grupo correspondente de crianças adultas cujos pais não tiveram doença psiquiátrica. As crianças adultas de pais deprimidos tinham três vezes a taxa de depressão maior, transtornos de ansiedade e abuso de substâncias em comparação com crianças adultas de pais não deprimidos.

Durante muitos anos, o método de alimentação não foi incluído nos estudos de depressão materna. Na verdade, durante anos, os profissionais que se especializaram em saúde mental perinatal acreditavam que a amamentação era realmente um fator de risco para a depressão pós-parto.

Felizmente, agora temos evidências que indicam que as mães que amamentam exclusivamente estão em menor risco de depressão. De fato, a amamentação protege a saúde mental materna (Dennis & McQueen, 2009; Groer & Davis, 2006; Kendall-Tackett, Cong, & Hale, 2011).

Amamentar aumenta a quantidade de sono:

Uma das razões pelas quais o aleitamento materno diminui o risco de depressão é seu impacto no sono. Em todos os parâmetros do sono, as mães que amamentam exclusivamente são melhores do que as que alimentam seus bebês de uma maneira mista (leite do peito e fórmula) ou apenas fórmula:

  • Tempo total do sono
  • Minutos para dormir
  • Porcentagem de sono de onda lenta
  • Fadiga diurna
  • Saúde física percebida
    (Blyton, Sullivan e Edwards, 2002, Doan, Gardiner, Gay e Lee, 2007; Kendall-Tackett et al., 2011)

Nosso estudo de 6.410 mães indicou que as mães que amamentam exclusivamente eram significativamente melhores em todas as medidas de sono em comparação com as suas contrapartes de alimentação mista e fórmula. Surpreendentemente, não houve diferença significativa entre as mães de alimentação mista e fórmula (Kendall-Tackett et al., 2011).

Em outras palavras, a amamentação exclusiva é uma experiência fisiológica diferente da alimentação mista. Quando as mães complementam com a fórmula, eles perdem o benefício fisiológico da amamentação durante o sono.

Falei sobre isto neste artigo: Mães que amamentam dormem mais a noite: até 45 min a mais

Proteção e responsividade:

Um outro estudo também descobriu que a amamentação protege os bebês quando suas mães estão deprimidas. Este estudo comparou quatro grupos de mães: mães deprimidas (que amamentam e que usam fórmula) e não deprimidas (que amamentam e que usam fórmula).

A medida era os padrões de EEG (eletroencefalograma) dos bebês (os padrões anormais eram um sintoma de depressão nos bebês). Os bebês de mães deprimidas que amamentavam apresentaram padrões de EEG normais em comparação com os bebês de mães deprimidas que usavam apenas fórmula (Jones, McFall e Diego, 2004).

Em outras palavras, a amamentação protegeu os bebês dos efeitos nocivos da depressão de suas mães. O motivo dessa descoberta se resume à responsividade materna.

Os pesquisadores descobriram que as mães deprimidas que estavam amamentando não perdiam o vínculo com seus bebês. Elas não podiam. As mães que amamentavam olhavam, tocavam e faziam contato visual com seus bebês mais do que as mães que não estavam amamentando. E isso foi o suficiente para fazer a diferença.

Ciclo de violência:

Mães com uma história de abuso na infância muitas vezes sentem como se não tivessem as ferramentas que precisam para criar seus próprios filhos com sucesso. Elas podem se perguntar se vão perpetuar o ciclo da violência.

O sono prejudicado pode ser um fator importante para a transmissão intergeracional de abuso.

Os bebês de mães com depressão ou TEPT são mais propensos a ter dificuldades no sono, possivelmente devido à sua exposição no útero aos hormônios de estresse elevados de suas mães (Field, Diego e Hernandez-Reif, 2006; Field et al., 2007).

E um estudo recente descobriu que, para as mulheres com TEPT e uma história de abuso infantil, as dificuldades do sono infantil e a depressão materna prejudicaram a ligação entre mãe e bebê e aumentaram o risco de transmissão intergeracional de trauma (Hairston et al., 2011). Mas há uma imagem diferente se a mãe amamentar.

Em Strathearn et al (2009) 15 anos de estudo longitudinal de 7.223 pares australianos de mães e bebês, a amamentação reduziu substancialmente o risco de maus tratos em crianças. As mães que não amamentam foram 2,6 vezes mais propensas a serem fisicamente abusivas e tinham 3,8 vezes mais chances de negligenciar suas crianças em comparação com as mães que amamentam.

Os resultados de um estudo de 2013 podem ajudar a explicar por que as coisas são assim. Em uma amostra de 6.410 novas mães, 994 mulheres relataram agressão sexual anterior.

Conforme previsto, a agressão sexual teve um efeito profundo e intenso no sono das mães, no bem-estar físico e na saúde mental. O sono das mães sexualmente agredidas era difícil, elas estavam mais cansadas, mais ansiosas, irritadas e tinham mais depressão.

Mas quando foi comparada a forma de alimentar os filhos (amamentando ou não) para as análises, descobriu-se que a amamentação atenuou os efeitos do abuso sexual e a regulação negativa da resposta ao estresse. Este efeito foi apenas para mulheres que amamentavam exclusivamente (Kendall-Tackett, Cong, & Hale, 2013).

A raiva, em particular, foi diminuída e isso poderia explicar as descobertas de Strathearn citadas acima. Além disso, as taxas mais baixas de depressão melhoram a capacidade de resposta materna, o que é protetor.

Saúde a longo prazo:

Podemos também examinar o impacto da segurança do vínculo mãe-bebê e seus efeitos sobre a saúde a longo prazo.

Em um artigo escrito pouco antes do final de suas vidas, os pioneiros Mary Ainsworth e John Bowlby observaram que a responsividade materna (ou do cuidador) era fundamental para criar um vínculo seguro em bebês. Ainsworth desenvolveu a principal medida de apego em lactentes: The Strange Situation. (Situação estranha ou desconhecida) no experimento do vídeo abaixo:


O experimento The Strange Situation tem sido usado em milhares de estudos em todo o mundo. O vínculo seguro desta medida é um grande preditor de saúde mental e física infantil.

E a capacidade de resposta é a chave. Quando os bebês não são respondidos de forma consistente, eles desenvolvem vínculos inseguros, e isso tem implicações a longo prazo para a saúde, como um recente estudo longitudinal de 32 anos em 163 pessoas sugere (Puig, Englund, Simpson e Collins, 2013).

Os participantes deste estudo foram seguidos do nascimento até os 32 anos. Aos 12 a 18 meses, foram avaliados através do experimento The Strange Situation. Aqueles com vínculos inseguros tiveram significativamente mais doenças baseadas em inflamação aos 32 anos do que aqueles que tiveram vínculo seguros. Essas descobertas são provavelmente decorrentes da ativação crônica do sistema de resposta inflamatória naqueles com vínculos inseguros.

Em resumo, os resultados desses estudos demonstram que a amamentação tem um papel muito maior a desempenhar na manutenção da saúde física e mental do que anteriormente acreditamos.

Porque a amamentação aumenta a capacidade de resposta materna, torna a experiência do dia-a-dia mais tolerável. E aumenta as chances de os bebês se vincularem.

A amamentação é muito mais do que apenas um método de alimentação. É uma maneira de cuidar de um bebê que irá proporcionar uma vida útil de boa saúde porque proporciona um caminho para as mães se conectarem com seus bebês – mesmo que não tenham esse tipo de cuidado.

Em suma, a amamentação pode tornar o mundo um lugar mais feliz e saudável, uma mãe e um bebê de cada vez. Não é apenas o leite.

Leia também:

 

Referências:

Ainsworth, M. D. S., & Bowlby, J. (1991). An ethological approach to personality development. American Psychologist, 46, 333-341.

Blyton, D. M., Sullivan, C. E., & Edwards, N. (2002). Lactation is associated with an increase in slow-wave sleep in women. Journal of Sleep Research, 11(4), 297-303.

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Field, T., Diego, M., & Hernandez-Reif, M. (2006). Prenatal depression effects on the fetus and newborn: A review. Infant Behavior & Development, 29, 445-455.

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Groer, M. W., & Davis, M. W. (2006). Cytokines, infections, stress, and dysphoric moods in breastfeeders and formula feeders. Journal of Obstetric, Gynecologic and Neonatal Nursing, 35, 599-607.Field, T., Diego, M., Hernandez-Reif, M., Figueiredo, B., Schanberg, S., & Kuhn, C. (2007). Sleep disturbance in depressed pregnant women and their newborns. Infant Behavior & Development, 30, 127-133.

Hairston, I. S., Waxler, E., Seng, J. S., Fezzey, A. G., Rosenblum, K. L., & Muzik, M. (2011). The role of infant sleep in intergenerational transmission of trauma. Sleep, 34(10), 1373-1383.

Jones, N. A., McFall, B. A., & Diego, M. A. (2004). Patterns of brain electrical activity in infants of depressed mothers who breastfeed and bottle feed: The mediating role of infant temperament. Biological Psychology, 67, 103-124.

Kendall-Tackett, K. A. (2002). Depression in new mothers: Why it matters to the child maltreatment field. Section on Child Maltreatment Newsletter, American Psychological Association, 6, 8-9.

Kendall-Tackett, K. A. (2010) (2016). Depression in new mothers: Causes, consequences and treatment options, 2nd Edition, 3rd Edition. London: Routledge.

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Kendall-Tackett, K. A., Cong, Z., & Hale, T. W. (2013). Depression, sleep quality, and maternal well-being in postpartum women with a history of sexual assault: A comparison of breastfeeding, mixed-feeding, and formula-feeding mothers Breastfeeding Medicine, 8 (1), 16-22.

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Strathearn, L., Mamun, A. A., Najman, J. M., & O’Callaghan, M. J. (2009). Does breastfeeding protect against substantiated child abuse and neglect? A 15-year cohort study. Pediatrics, 123(2), 483-493. doi: 123/2/483 [pii] 10.1542/peds.2007-3546.

Weissman, M. M., Wickramaratne, P., Nomura, Y., Warner, V., Pilowsky, D., & Verdeli, H. (2006). Offspring of depressed parents: 20 years later. American Journal of Psychiatry, 163, 1001-1008.

 

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