A desconstrução do mito “leite fraco”: todo leite materno é forte

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leite fraco
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Antes de mais nada e para deixar muito claro, leite fraco não existe. Não há nada que qualquer um diga que mude esta realidade.

Pode ser que algumas mães se apeguem ao mito do leite fraco como forma de consolo por não saber o que exatamente aconteceu para que sua história de amamentação não tenha dado certo. Muitos fatores podem atrapalhar a amamentação e fazer com que mães fiquem confusas e vulneráveis a este tipo de mito.

E é por isso que hoje eu vou desconstruí-lo.

Desconstruir porque na verdade ele foi construído em meados do século XIX, quando surgiram as primeiras “regras” que normalizavam a amamentação e claro, tinham como referências teóricas escolas europeias, especialmente as francesas e alemãs.

Usar referencias de fora do Brasil quando se trata de amamentação deve ser sempre visto com cuidado. Hoje o Brasil é referência em apoio e promoção do aleitamento materno, fora esta questão básica e importante, sempre devemos entender como determinada cultura funciona, seus hábitos e ambiente (que são diferentes) e fazer as devidas adaptações para a realidade brasileira quando for possível.

É preciso também considerar que, conforme dito no post  A triste história das amas de leite no Brasil, quando os europeus chegaram para colonizar o Brasil, a amamentação era uma prática muito bem estabelecida entre as índias e a cultura dos europeus não valorizava a amamentação.

As regras criadas naquela época que normalizavam a amamentação hoje são consideradas ultrapassadas.

Sem embasamento científico, ou seja, não valem mais nada e devem ser esquecidas completamente, vistas apenas como um grande erro no caminho histórico da amamentação.

Porém, ainda hoje alguns profissionais da área de saúde e que atendem diretamente mães e bebês se apegam e transmitem um discurso desatualizado, tão desatualizado que foi estabelecido por volta de 1985. Uau! Olha só quanto tempo!

Dentre estas regras estavam:

A promoção do aleitamento materno naquela época se resumia a comparar as mulheres com os mamíferos (somos mamíferos sim, mas não apenas…) e a culpar a mãe pelo insucesso da amamentação dizendo que a saúde do filho dependia dela exclusivamente.

A maternidade já é uma mudança tão grande e que altera tanto a vida de uma mulher que responsabilizá-la unicamente pelo insucesso da amamentação era uma estratégia bem cruel.

O que os antigos promotores da amamentação não contavam é que toda regra tem sua exceção e isso se tornou um problema para eles.

Por mais que muitas mulheres conseguissem ser bem sucedidas simplesmente seguindo seus instintos mamíferos e se esforçando, ainda que sozinhas, afinal, dependia dela a saúde do filho, outras tantas precisavam de um pouco mais do que isso, o apoio e incentivo para ganhar fôlego para continuar, mesmo porque amamentar não é fácil para todas.

Eles não tinham respostas para o insucesso da amamentação para este segundo grupo de mulheres.

As que precisavam de mais do que outras, que precisavam de estímulo, incentivo, apoio, alguém para dizer que ela iria conseguir…Então na concepção deles, era preciso encontrar uma resposta para o insucesso da amamentação daquelas mulheres, afinal, eram situações “impossíveis de serem solucionadas”, pois, na época eles não sabiam que as regras citadas ali em cima que garantiam “o sucesso da amamentação”, na verdade, mais atrapalham do que ajudam além de não imaginar que o apoio a mãe que amamenta é um fator determinante em muitos casos de amamentação.

Para conter esta crise, criou-se uma figura biológica sem critério algum e sem o menor embasamento científico: o leite fraco.

Tudo que dava errado na amamentação de determinada mulher, eis o vilão, o leite fraco. Tudo que eles não tinham respostas, o leite fraco respondia.

O leite fraco se tornou o responsável por muitos desmames e a resposta fácil a qualquer empecilho durante a amamentação.

Aquela mulher que não sabia amamentar tinha agora um motivo para não ter tido sucesso na amamentação: “seu leite era fraco”.

“O nascimento do leite fraco demarca um importante momento da história da saúde pública no Brasil, particularmente para os que trabalham com aleitamento materno, por trazer à tona a incapacidade do profissional para lidar com dois conceitos intimamente ligados, mas que designam conjuntos de práticas distintas: promoção e apoio. Do ponto de vista etimológico, ‘promover’ significa ‘dar impulso, trabalhar a favor, fazer avançar, favorecer progresso’, enquanto ‘apoiar’ quer dizer ‘ajudar, amparar, sustentar” (Ferreira, 1993)

Para que uma mãe tenha sucesso na amamentação, não basta apenas promover o aleitamento, é preciso apoia-la nas dificuldades encontradas no meio do caminho.

A mãe precisa aprender como amamentar e precisa ter alguém para mediar os conflitos que surgem durante o processo.

E por que o mito do leite fraco se arraigou tão fortemente na cultura brasileira e assombra mulheres até hoje?

Porque além de serem mal orientadas por profissionais de saúde desatualizados e nem todas terem ou buscarem a informação correta, algumas mães geralmente sentem dificuldades em assumir a incapacidade de amamentar.

Ainda que por falta de apoio e informação, porque afinal, a promoção que foi feita do aleitamento materno ao longo dos anos sempre sugeriu que o sucesso dependia exclusivamente dela. Era como se ela não fosse capaz de cumprir uma função “natural dos mamíferos” então é menos penoso culpar o leite fraco…aquele que não existe.

Leite fraco não existe.

O leite fraco não passa de uma antiga construção social, uma ilusão. Ainda bem porque a grande maioria das situações que podem dificultar a amamentação tem solução.

Ainda tem dúvidas da qualidade do leite materno? Veja aqui o que tenho a dizer sobre isto: A Supremacia do Leite Materno

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